Em um momento em que Cuba enfrenta o agravamento dos efeitos do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, além de crescentes pressões destinadas a isolar e sufocar seu projeto de soberania nacional, torna-se ainda mais importante reafirmar a solidariedade internacional ao povo cubano. Não se trata apenas de defender um país amigo, mas de rejeitar uma política que há décadas busca impor dificuldades econômicas e sociais a uma nação inteira como instrumento de pressão política.

O Brasil, pela dimensão de sua economia, pelo peso de sua diplomacia e pela própria história de cooperação construída com Cuba, tem condições de desempenhar um papel mais ativo e corajoso na defesa do fim do bloqueio e na ampliação das relações bilaterais. Ao olhar para a história das relações entre os dois países, encontramos inúmeros exemplos de solidariedade, intercâmbio e apoio mútuo que ajudam a explicar por que a defesa de Cuba continua sendo, para muitos brasileiros, uma causa profundamente ligada à defesa da soberania dos povos, da autodeterminação e da cooperação internacional.

Quando se fala da relação entre Brasil e Cuba, é comum que a conversa fique restrita ao Programa Mais Médicos ou às disputas ideológicas que cercam os dois países. Mas a história dessa relação é muito mais longa e diversa. Ao longo de mais de seis décadas, Brasil e Cuba construíram vínculos que passaram pela solidariedade política, pelo acolhimento de exilados, pela formação universitária, pela cooperação científica e pela saúde pública.

Nem toda essa cooperação ocorreu na mesma direção. Em áreas como agricultura, segurança alimentar e algumas políticas públicas, o Brasil foi o principal fornecedor de conhecimento e tecnologia para Cuba. Em outras, porém, Cuba ofereceu contribuições importantes ao Brasil, especialmente na formação de profissionais de saúde e no atendimento a populações historicamente desassistidas.

Acolhimento de perseguidos políticos durante a ditadura

Um dos capítulos menos lembrados dessa história ocorreu durante a ditadura militar brasileira (1964–1985). Após o golpe de 1964 e, sobretudo, depois da edição do AI-5 em 1968, milhares de brasileiros foram presos, perseguidos, torturados, exilados ou tiveram seus direitos políticos cassados.

Nesse contexto, Cuba tornou-se um dos países que acolheram brasileiros perseguidos pelo regime. Militantes políticos, estudantes, sindicalistas, intelectuais e ativistas encontraram na ilha um local de refúgio quando permanecer no Brasil significava correr riscos reais de prisão, tortura ou morte.

Embora os principais destinos do exílio brasileiro tenham sido países como Chile, Uruguai, México, França e Argélia, Cuba também teve um papel importante na rede internacional de acolhimento aos perseguidos pela ditadura. Para muitos desses brasileiros, a ilha representou não apenas segurança física, mas também a possibilidade de reorganizar suas vidas, continuar seus estudos e reconstruir projetos pessoais e políticos.

Cuba e a luta armada contra a ditadura

A relação de Cuba com a oposição brasileira não se limitou ao acolhimento de exilados.

No contexto da Guerra Fria, o governo cubano apoiava movimentos revolucionários em diversos países da América Latina. Parte desse apoio alcançou organizações brasileiras que defendiam a luta armada contra a ditadura militar.

Pesquisas históricas apontam que militantes de grupos como a Ação Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e outras organizações passaram por treinamento político e militar em Cuba entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970.

A participação de Cuba no apoio à resistência brasileira durante a ditadura deve ser compreendida no contexto de uma América Latina marcada por golpes militares, repressão e forte intervenção externa. Ao acolher exilados e oferecer formação a militantes que enfrentavam a ditadura, Cuba expressava uma política internacional baseada na solidariedade entre os povos e no apoio às lutas de libertação. Para centenas de brasileiros perseguidos pelo regime, a ilha representou não apenas um refúgio seguro, mas também a possibilidade concreta de continuar lutando por democracia, soberania nacional e justiça social.

A formação de brasileiros nas universidades cubanas

Décadas depois, a cooperação entre os dois países assumiria um caráter muito diferente.

A partir de 1999, com a criação da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Havana, Cuba passou a receber estudantes brasileiros interessados em cursar medicina.

O projeto foi concebido para oferecer formação médica gratuita a jovens de países em desenvolvimento, especialmente oriundos de comunidades pobres, rurais ou com escasso acesso à educação superior.

Ao longo dos anos, mais de mil brasileiros concluíram seus estudos de medicina em Cuba. Em diferentes momentos, centenas de brasileiros estudaram simultaneamente na ELAM. O programa oferecia ensino gratuito, alojamento estudantil, alimentação subsidiada e uma formação fortemente orientada para atenção primária, medicina preventiva e saúde comunitária.

Para muitos estudantes brasileiros de baixa renda, a ELAM representou uma oportunidade que dificilmente encontrariam em universidades privadas brasileiras ou mesmo nas concorridas universidades públicas.

Em termos de formação de recursos humanos para o sistema de saúde brasileiro, essa é provavelmente a segunda maior contribuição cubana ao Brasil, atrás apenas do Programa Mais Médicos.

Ciência, biotecnologia e pesquisa

A cooperação também ocorreu em áreas científicas e tecnológicas.

Apesar de suas limitações econômicas, Cuba construiu ao longo das últimas décadas um setor de biotecnologia reconhecido internacionalmente, com destaque para vacinas, imunologia, medicamentos biológicos e pesquisa médica.

Instituições brasileiras e cubanas participaram de intercâmbios, acordos de cooperação e projetos conjuntos voltados à saúde pública, pesquisa biomédica e inovação tecnológica.

Embora menos visível para a população do que programas como o Mais Médicos, essa colaboração ajudou a aproximar pesquisadores, instituições científicas e órgãos de saúde dos dois países.

Vigilância sanitária e medicamentos

Outra área pouco conhecida foi a cooperação técnica entre autoridades regulatórias.

Projetos envolvendo instituições cubanas, a ANVISA e a Agência Brasileira de Cooperação permitiram intercâmbio de experiências em farmacovigilância, controle de qualidade de medicamentos, inspeção sanitária e regulação farmacêutica.

Trata-se de uma cooperação altamente especializada, distante dos holofotes da política, mas importante para o fortalecimento institucional das agências responsáveis pela segurança sanitária.

Geologia e mineração

Desde os anos 1980, Brasil e Cuba também desenvolveram projetos conjuntos em geologia, mineração e recursos minerais.

Pesquisadores dos dois países participaram de estudos sobre mapeamento geológico, exploração mineral e questões ambientais, promovendo intercâmbio técnico e científico em uma área estratégica para ambas as economias.

O Programa Mais Médicos

Nenhuma iniciativa, porém, teve impacto tão amplo e visível quanto o Programa Mais Médicos.

Entre 2013 e 2018, aproximadamente 11.400 médicos cubanos vieram atuar no Brasil por meio de uma cooperação envolvendo os governos brasileiro e cubano e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Esses profissionais foram destinados principalmente a municípios do interior, regiões amazônicas, áreas rurais, periferias urbanas e territórios indígenas onde historicamente havia dificuldade para preencher vagas médicas.

Além do atendimento direto à população, os médicos cubanos trouxeram experiência acumulada em medicina comunitária, acompanhamento familiar e atenção primária à saúde, características centrais do sistema de saúde cubano.

Independentemente das avaliações políticas sobre o programa, há consenso de que os profissionais cubanos ampliaram significativamente a cobertura médica em regiões onde a presença permanente de médicos era rara ou inexistente.

Uma relação de mão dupla

É importante lembrar que a cooperação entre Brasil e Cuba nunca foi uma via de mão única.

Diversos projetos conduzidos pela Agência Brasileira de Cooperação mostram que o Brasil também transferiu conhecimento, tecnologia e experiência para Cuba em áreas como agricultura, segurança alimentar, bancos de leite humano e gestão pública.

Por isso, a história da cooperação entre os dois países não pode ser resumida à ideia de que um ajudou o outro de forma unilateral. Trata-se de uma relação complexa, construída em diferentes momentos históricos e marcada por trocas de naturezas distintas.

Ainda assim, quando se pergunta especificamente o que Cuba contribuiu para o Brasil, alguns pontos se destacam com clareza: o acolhimento de perseguidos políticos durante a ditadura, a formação universitária de brasileiros, a cooperação científica e sanitária e, sobretudo, a presença de milhares de médicos em regiões que enfrentavam dificuldades históricas de acesso à saúde.

Essa trajetória mostra que as relações entre Brasil e Cuba foram muito mais amplas do que normalmente aparece no debate público, envolvendo não apenas governos, mas também estudantes, pesquisadores, profissionais de saúde, movimentos sociais e cidadãos comuns dos dois países.

Chegou a hora de uma solidariedade consequente

A história que acabamos de percorrer mostra que a solidariedade entre Brasil e Cuba nunca foi uma abstração. Ela se expressou no acolhimento de perseguidos políticos, na formação de estudantes, na cooperação científica e na presença de médicos onde o Estado brasileiro historicamente falhou em garantir atendimento à população. Em diferentes momentos, os laços entre nossos povos produziram resultados concretos e salvaram vidas.

Hoje, quando Cuba enfrenta dificuldades econômicas agravadas pelo bloqueio e pelas restrições impostas ao seu desenvolvimento, a solidariedade não pode se limitar a declarações ocasionais ou gestos diplomáticos protocolares. É necessário transformá-la em ação política concreta.

Por isso, cabe aos movimentos populares, às organizações estudantis, aos sindicatos, aos partidos políticos comprometidos com a soberania dos povos, aos intelectuais, pesquisadores e a toda a população democrática brasileira fortalecer a campanha pelo fim do bloqueio econômico e pela ampliação das relações de cooperação entre Brasil e Cuba. É preciso pressionar o governo federal para que assuma uma postura mais firme na defesa da autodeterminação do povo cubano, amplie os acordos de cooperação, fortaleça os intercâmbios científicos, educacionais e culturais, e utilize o peso político e diplomático do Brasil para denunciar medidas que aprofundam o sofrimento da população da ilha.

Solidariedade não é caridade. Solidariedade é o reconhecimento de que os povos latino-americanos compartilham desafios comuns e que nenhum país deve ser condenado ao isolamento, à fome ou à privação como instrumento de pressão política. Defender Cuba hoje é defender o direito dos povos de construir seu próprio destino sem bloqueios, ameaças ou tutelas externas.

Que a memória das relações construídas entre brasileiros e cubanos ao longo das últimas décadas sirva não apenas como registro histórico, mas como inspiração para fortalecer, no presente, uma solidariedade ativa, internacionalista e consequente.

Chamado à mobilização

O governo Lula tem a responsabilidade humanitária, nacional e moral de deixar para trás a retórica e a vacilação e agir com a urgência que o momento exige. O Brasil possui condições políticas, materiais e humanas para desempenhar um papel relevante na solidariedade ao povo cubano. E deve fazê-lo agora.

Mas essa responsabilidade não recai apenas sobre o governo. Trabalhadores, intelectuais, estudantes, juventude, organizações sociais, movimentos populares e forças políticas comprometidas com a soberania e a solidariedade internacionalista devem ampliar a pressão e a mobilização para que medidas concretas sejam adotadas sem demora. A solidariedade entre os povos não avança por inércia: ela exige organização, iniciativa e ação coletiva.

As eleições passam; a história permanece. É nela que serão julgadas as decisões tomadas hoje.

Fontes e referências

Formação de brasileiros em Cuba (ELAM)

Site oficial da ELAM

Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM)

Textos sobre estudantes brasileiros


Ditadura, exílio e memória

Projeto Brasil Nunca Mais

O mais importante acervo documental sobre a repressão da ditadura militar brasileira.

Comissão Nacional da Verdade


Livros importantes sobre exílio e resistência

Denise Rollemberg

Livro fundamental:

  • O Exílio: Entre Raízes e Radares

  • Também vale consultar:

    • Exílio: Entre Raízes e Radares
    • Memória, Opinião e Cultura Política

Catálogo:

Daniel Aarão Reis

Obras recomendadas:

  • A Revolução Faltou ao Encontro
  • Ditadura e Democracia no Brasil
  • 1968: A Paixão de uma Utopia

Catálogo:

Rodrigo Patto Sá Motta

Referência importante para Guerra Fria e relações Brasil-Cuba.

Obras:

  • Em Guarda Contra o Perigo Vermelho
  • As Universidades e o Regime Militar
  • Diversos artigos sobre anticomunismo, Guerra Fria e América Latina.

Catálogo:


Treinamento de brasileiros em Cuba

Uma das referências acadêmicas mais utilizadas é:

Esse artigo é particularmente útil porque trabalha diretamente com documentação e pesquisas sobre as relações entre organizações brasileiras de esquerda e Cuba durante os anos 1960 e 1970.


Biotecnologia cubana

Agustín Lage

Considerado uma das principais referências sobre o desenvolvimento científico cubano.

Textos e entrevistas:


Uma referência que vale muito acrescentar

Essas fontes ajudam a sustentar que o bloqueio é condenado há décadas pela esmagadora maioria dos países-membros da ONU, inclusive pelo Brasil em diferentes governos.


Relatório sobre as consequências do bloqueio

Uma iniciativa multilingual, disponibilizando relatório com histórico e consequências do bloqueio a Cuba imposto pelos EUA:

Tumba El Bloqueo